Antiraças

Nelson Mota: no Leme com Clarice

Que alegria reencontrar Clarice Lispector, a quem vi pela ultima vez na passeata dos 100 mil, em 1968, quando sentei a seu lado no asfalto em frente à Candelária para ouvir o discurso do líder Vladimir Palmeira. Ela tinha 48 anos, era branca como a neve, com olhos amendoados e misteriosos: uma das mulheres mais lindas que já vi, com meus olhos de 24 anos tambem atraidos por seu talento e inteligência. Se ela me desse um alô, me apaixonaria imediatamente. Mas ela só olhava para Chico Buarque. Hoje de manhã sentei a seu lado e começamos a falar da vida, da morte, do amor, dos relacionamentos e ela me disse:

- Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado.”

- Como é que se consegue a simplicidade e a densidade na escrita ?
- Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.”

- E o amor, Clarice, o que você fez do amor ?

“Eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.

- E o que você aconselharia aos apaixonados ?

- Faça o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe.

- E o que é a liberdade para você ? 

- Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.

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